Teoria e realidade

Quais são os limites das teorias científicas?


Que relação a ciência estabelece com a realidade?


De que forma diferentes concepções de ciência podem influenciar a educação nesta área?



Como leitura prévia para os participantes da discussão, indicamos o texto abaixo:

Uma briga entre a física e a filosofia (Marcelo Gleiser)

Fique por dentro do que rolou na discussão!


Nessa reunião aberta de formação nos debruçamos sobre o tema da natureza da ciência. Iniciamos a discussão com a seguinte problemática: o que é real? Será que podemos acessar a realidade diretamente? A ciência é comumente considerada um conjunto de pedaços da própria realidade, como se ao longo do tempo fôssemos juntando mais e mais pedaços, até o momento em que teríamos descoberto toda a realidade. No entanto, como disse Marcelo Gleiser em seu artigo Uma briga entre a física e a filosofia: “A ciência [a física, mais especificamente] só faz sentido quando definida sobre uma estrutura conceitual, começando pelas noções de espaço, tempo e energia.” (colchete nosso). Ao fazer tal afirmação, Gleiser coloca a ciência ao lado da teologia, da filosofia e de outras formas de descrever o mundo, como uma das entidades que fornece explicações para determinadas questões, mas que funciona com base em dogmas e definições.

A partir dessa introdução, surgiram diversos posicionamentos entre os participantes sobre a função e a posição social das ciências, do conhecimento não-científico e da educação formal e não-formal na formação do sujeito que convive com o conhecimento científico. Destacou-se, sobretudo, o debate acerca da posição da divulgação científica na formação do sujeito crítico.

O debate iniciou questionando o que seria essa ciência que constrói as teorias científicas. Para alguns, a ciência depende muito da interação entre os pares - o próprio debate entre os cientistas e até a conversa não formal nos bastidores da academia. Outros questionaram a leitura de ciências que a sociedade faz: lê-se o produto da ciência e não o processo de produção do conhecimento científico. A mudança da visão canônica da ciência para uma visão crítica, na qual conhecemos o processo e assim podemos nos posicionar de maneira embasada, foi apontada como sendo necessária.

Outro ponto debatido foi a influência, em diálogo com o tema anterior, do ensino básico tradicionalmente praticado nas escolas na leitura das ciências a partir de seu produto. A partir disso, historicamente se construiu na educação uma falsa percepção de que o que se mostra como teoria científica é a realidade - e a ciência, portanto, apenas constata essa realidade - e que as ciências não são formas de leitura de mundo, sendo um entre vários tipos de construção de conhecimento. Assim, construímos um debate sobre a educação científica nas escolas e sua importância na transformação de um sujeito que recebe produtos da ciência para um sujeito que é capaz de olhar criticamente a ciência: a partir do entendimento dos processos de produção desse conhecimento, poder compreender o que é a leitura científica do mundo e o que é a realidade.

Após discutirmos sobre o papel da educação básica na diferenciação entre o que é teoria científica e o que é realidade, passamos a discutir o papel da educação não-formal, sobretudo o papel da divulgação científica. A discussão ocorreu em cima de questões colocadas pelos participantes, como: “O que queremos com divulgação científica?”, “Divulgar os conceitos ou munir a população com os métodos de racionalização das ciências e criar sujeitos críticos?”, “Por que a ciência não chega nas pessoas?” e “Porque a ciência não está no cotidiano das pessoas?”. Considerando que muitas pessoas nunca frequentaram ambientes escolares, podemos considerar a divulgação científica como uma ferramenta para empoderar as pessoas com o criticismo científico (criticismo embasado e consciente). Entretanto, muito se falou sobre a divulgação científica espelhada no ensino tradicional, que se preocupa apenas em elucidar os produtos da ciência.

Próximo ao fim da reunião, uma fala interessante destacou a política brasileira de produção relacionada com o produto da divulgação científica. Assim, o Brasil, por ser um país de capitalismo dependente, tem sua produção científica deslocada do processo produtivo por incapacidade de absorver todo esse produto. Nos voltamos, então, para o exterior, fazendo uma ciência dependente. Em resposta, a divulgação científica tenta passar a visão que estamos fazendo uma ciência brasileira soberana, quando não estamos de fato.

Devemos, portanto, refletir mais sobre como nos é ensinado e como ensinamos sobre ciências, de modo a evitar que a ciência seja vista como uma constatação da realidade, que produz um conhecimento superior aos outros tipos de conhecimento. De modo a evitar essa visão, devemos desconstruir a relação que se faz na educação entre teoria e realidade, buscando compreender os processos da produção científica para nos tornarmos empoderados da ciência que transpassa a sociedade.

As referências bibliográficas que utilizamos na preparação da reunião, bem como as que foram indicadas pelos participantes, são as seguintes:


GLEISER, MARCELO. Uma briga entre a física e a filosofia. Folha de S. Paulo, 2012.

Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelogleiser/1085905-uma-briga-entre-a-fisica-e-a-filosofia.shtml>

HEISENBERG, WERNER. O papel da física moderna na evolução do pensamento humano. Física e filosofia, 1958.

Modelos em ciência: conversa com Charbel Niño El-Hani. Disponível em: https://youtu.be/lGGpPh2r9RU

HAYASHI, Maria Cristina Piumbato Innocentini; SOUSA, Cidoval Morais de; ROTHBERG, Danilo. Apropriação social da ciência e da tecnologia: contribuições para uma agenda. EDUEPB, 2011.

NUSSENZVEIG, Paulo. Como a filosofia contribui para a formação dos cientistas. Jornal da USP, São Paulo, 5 de jul. de 2017. Disponível em: <https://jornal.usp.br/atualidades/como-a-filosofia-contribui-para-a-formacao-dos-cientistas/> Acesso em: 24 de Set. de 2020.

GLEISER, Marcelo. A ilha do conhecimento: os limites da ciência e a busca por sentido. Editora Record, 2014.

Contato: reunioesabertascientec@gmail.com

Autoria: Souza, C.; Humphreys, N.; Pontes, S.; Pusceddu, L. (2020) Teoria e realidade.

Créditos detalhados

Autores: Caique Oliveira de Souza, Nicoly Dias Humphreys, Silas Lima Pontes.

Coordenação: Luca Hermes Pusceddu.