Educação virtual e acesso: questões socioeconômicas

O que é educação virtual?

Essa educação substitui a presencial?

Quem tem acesso a educação virtual?

Em que contexto a educação virtual é possível?

Durante a pandemia, o debate sobre o ensino online ficou em evidência.


A partir dessas questões, tivemos uma discussão muito rica. Infelizmente, por problemas técnicos, não conseguimos gravar a reunião. No entanto, segue abaixo um relato.

Fique por dentro do que rolou!

A reunião de formação que realizamos em 29/10 tratou do tema Educação virtual e acesso: questões socioeconômicas. Partiu de uma apresentação dos organizadores que consistia em diferenciar educação remota de educação a distância (EaD), apresentar os direitos de acesso à educação, à internet e à cultura - sobretudo museus e espaços de educação não-formal - contidos em lei, a riqueza do espaço online para educação e os diferentes projetos de educação online que ocorre atualmente. Ao fim, foi apresentado pesquisas que mostram o verdadeiro acesso dos brasileiros a internet, o qual se reflete no acesso a educação online, a fim de iniciar os questionamentos sobre as questões socioeconômicas da educação virtual.

A educação a distância, usualmente virtual, esteve sempre associada a empresas privadas: grandes oligopólios que administram escolas e universidades privadas, bem como plataformas virtuais voltadas para a educação. Ademais, esse tipo de educação sempre esteve associada a projetos de desmonte e precarização da educação pública, na intenção de reduzir custos e, em última instância, transferir dinheiro público para as mãos das empresas privadas.

De fato, o momento em que vivemos trouxe a tona essa modalidade de educação e, com ela, a precarização e o agravamento da desigualdade social, deixando de fora os estudantes das classes mais baixas, que não possuem acesso de qualidade a equipamentos digitais e a internet de banda larga e, assim, não conseguem acompanhar as atividades escolares ou acadêmicas.

No entanto, para além das questões de acesso, em nossa reunião discutimos também sobre questões candentes da própria atividade docente, do processo de ensino-aprendizagem e suas limitações nessa modalidade. Muito se discutiu sobre o papel da escola para a socialização, especialmente de crianças, uma vez que somos seres sociais, nos formamos a partir do social e sabemos que, a distância, é muito difícil manter vínculos reais que permitam o aprendizado de fato. Na verdade, a educação a distância se apresenta, muitas vezes, como uma educação depositadora, bancária, que se limita à transmissão de conteúdos.

Por meio do relato de uma professora participante, discutimos sobre a problemática que existe na educação especial nesta modalidade. As plataformas disponíveis não são, em sua maioria, inclusivas, uma vez que não fornecem ferramentas adequadas para atender a todas as diferentes necessidades dos alunos. Além disso, se existe um sério déficit na preparação de professores para a educação especial de forma presencial, esse déficit no ensino remoto é ainda maior.

Apesar de toda a problemática, foi levantada na reunião a seguinte questão: é possível fugir das tecnologias? Concluímos que não, e que não é necessário, uma vez que o uso de tecnologias pode ser benéfico para a educação em muitos aspectos. No entanto, de quais tecnologias estamos falando? Essa questão se apresenta uma vez que reconhecemos que as tecnologias educacionais não são neutras, mas importam os valores e interesses de seus produtores, facilitando certas pedagogias e dificultando outras.

Desta forma, precisamos olhar para a utilização de tecnologias não mais de forma meramente instrumentalista, mas de forma crítica. Isso passa por compreendermos até mesmo o processo de desenvolvimento dessas tecnologias e que relação elas estabelecem de fato com a sociedade e seus interesses.

Por fim, para fechar, foi lembrado que apesar de muito ter sido falado em relação à precarização por meio do ensino remoto (hoje chamado de emergencial, mas que já pairava no ar e nas palavras de nosso atual presidente desde antes de sua eleição), o ataque não é só à educação. Vivemos um verdadeiro desmonte das estruturas públicas, desde a ciência até a saúde, que se concretizam por meio de programas de contingenciamento, como é o caso do PL529 no estado de São Paulo.


Referências dos organizadores:

LEMOS, André. Cibercultura: alguns pontos para compreender a nossa época. Olhares sobre a cibercultura. Porto Alegre: Sulina, 2003.

MARTI, Frieda Maria; DOS SANTOS, Edméa Oliveira. EDUCAÇÃO MUSEAL ONLINE: A EDUCAÇÃO MUSEAL NA/COM A CIBERCULTURA. Revista Docência e Cibercultura, v. 3, n. 2, p. 41-66, 2019.

WOHLERS, Márcio et al. Análise e recomendações para as políticas públicas de massificação de acesso à internet em banda larga. 2010.

SABBATINI, Marcelo. Museus e centros de ciência virtuais: uma nova fronteira para a cultura científica. Comciência, Campinas, n. 45, p. 1-6, 2003.


As referências citadas pelos participantes são as seguintes:

https://theintercept.com/2020/06/15/app-empresa-tv-bolsonaro-aulas-online-pandemia/

Tecnologias digitais na formação de professores: https://www.youtube.com/watch?v=uIYwnqGj0fU

Passeio virtual 360 por vários museus do Brasil: https://www.vila360.com.br/museu-virtual-360-graus/ clid=CjwKCAjw0On8BRAgEiwAincsHL6SXOz1NLc4BPeaq7c_OUiK-eoyNJhkTS9TkBNcCNQy-kXVBwy_sBoC1v8QAvD_BwE

https://www.americanas.com.br/produto/116584407

Filme "O dilema das redes" sobre uso de dados privados de várias formas, Netflix

https://www.brasildefato.com.br/2020/10/21/universidades-privadas-querem-usar-aulas-gravadas-por-professores-mesmo-apos-demissao

Contato: reunioesabertascientec@gmail.com

Autoria: Souza, C.; Humphreys, N.; Pontes, S.; Pusceddu, L. (2020) Educação virtual e acesso.

Créditos detalhados

Autores: Caique Oliveira de Souza, Nicoly Dias Humphreys, Silas Lima Pontes.

Coordenação: Luca Hermes Pusceddu.