Circuito da Compostagem

Foto de uma caixa de minhocário. Na parte de cima podemos ver a matéria orgânica em estado avançado de humificação e na parte de baixo, restos vegetais e animais recém colocados na caixa.

O que é compostagem?

A compostagem trata de otimizar o processo de decomposição da matéria orgânica, que já ocorre espontaneamente na natureza, sendo uma espécie de reciclagem do lixo orgânico. A decomposição da matéria orgânica ocorre a partir da ação dos microrganismos autóctones, ou seja, aqueles que já se encontram no solo e na própria matéria orgânica (principalmente bactérias, fungos e actinomicetos), além de animais e insetos, como minhocas, besouros, lacraias, gongolos, formigas e aranhas.

A partir da aplicação de um conjunto de conhecimentos e técnicas, a compostagem possibilita acelerar e direcionar este processo de decomposição. A reprodução das condições ideais eleva a eficiência do processo e produz fertilizantes e substratos orgânicos humificados. Mais à frente vamos detalhar as muitas características benéficas destes biofertilizantes e do húmus.

A matéria orgânica utilizada na compostagem pode ser de origem vegetal, como restos de legumes, frutos e folhas, ou de origem animal, como esterco, cama de aviário e restos de abatedouros. Resumidamente, no processo de compostagem ocorre a formação de gás carbônico (CO2), vapor de água (H2O), calor, matéria orgânica compostada (húmus) e material orgânico líquido.

No Brasil, cerca de 50% dos resíduos urbanos é matéria orgânica passível de reciclagem por meio de processos de compostagem. Por isso, tem um enorme potencial ecológico ainda pouco explorado.

Local da instalação: 1. Portal da compostagem 2. Minhocário didático 3. Composteira de leira com revolvimento 4. Tenda para workshops

O Circuito da Compostagem é uma instalação que estamos construindo para estrear na reabertura do Parque CienTec. O objetivo é proporcionar um contato mais próximo dos visitantes com esta prática.

Após percorrer todo o circuito, o visitante será capaz de descrever de maneira simplificada o processo da compostagem, as diferenças básicas entre uma composteira comum e um minhocário, além de saber elencar alguns dos fatores ecológicos envolvidos na prática da compostagem.

Visitantes mais atentos podem ainda aprender a descrever minuciosamente os diversos aspectos envolvidos no processo da compostagem e terão o conhecimento necessário para construir e manejar sua própria composteira doméstica, utilizando materiais fáceis de encontrar.

Aprenda mais sobre o processo da compostagem acessando os tópicos abaixo:

Fases da compostagem

Não existe um consenso absoluto na demarcação das fases da compostagem, mas podemos observar ao longo do processo variações nas características físicas, químicas e biológicas do material. Variam, por exemplo, a temperatura, o pH, e as populações de microrganismos predominantes. Vamos dividir em quatro fases identificáveis a partir das variações da temperatura ao longo do processo de compostagem:

1. Fase mesófila inicial. Fase bem mais curta em relação às demais, com duração de poucos dias, onde ocorre gradual elevação da temperatura mas ainda predominam temperaturas moderadas (até 40º aproximadamente). Aqui predomina justamente a ação de bactérias e fungos mesófilos na degradação dos amidos, açúcares e proteínas (componentes solúveis e rapidamente degradáveis dos materiais orgânicos). Uma das principais transformações químicas desta fase é a formação de ácidos orgânicos, provocando a queda no pH, que em geral já começa baixo.

2. Fase de aquecimento ou termófila. Com a elevação da temperatura, os microrganismos mesófilos têm inicialmente sua atividade inibida e em seguida morrem. A população microbiana passa a ser composta principalmente por actinomicetos, bactérias e fungos termófilos, que se multiplicam rapidamente.

As bactérias atuam especialmente na degradação dos lipídeos e frações de hemicelulose. Já os actinomicetos e fungos atuam na degradação da celulose e da lignina. A intensa atividade dos microrganismos pode elevar a temperatura acima dos 65ºC, o que desempenha importante papel na eliminação da contaminação biológica, em especial de agentes patógenos.

Os ácidos minerais, orgânicos e húmicos produzidos desde o início do processo passam a reagir com bases liberadas da matéria orgânica chegando a tornar o material alcalino. A falta de oxigênio nesta fase resulta no acúmulo dos ácidos orgânicos.

Um fator que chama muito a atenção nestas primeiras fases é a relevante perda de massa e volume, principalmente pela eliminação de calor, gás carbônico e vapor de água.

3. Fase de estabilização. A temperatura diminui gradualmente mas continua a decomposição das substâncias de degradação lenta, como a celulose, a hemicelulose e a lignina, que é principal fonte dos anéis aromáticos que formam as substâncias húmicas. A partir desta fase, a atividade microbiana é reduzida e predomina a atividade de fungos e actinomicetos, além da macrofauna (animais e insetos). O pH começa a se estabilizar.

4. Fase de maturação ou humificação. Com a estabilização da temperatura, que se torna igual à temperatura ambiente, se consolida a homogenização do composto com a predominância das substâncias húmicas. O pH se estabiliza em torno da neutralidade.

Condições ideais para a compostagem

1. Relação C:N entre 25-35 (ou seja, de 25 a 35 partes de Carbono para cada parte de Nitrogênio).

Esta medida está relacionada à composição celular dos microrganismos e à energia utilizada na formação de suas estruturas. Na composição celular dos microrganismos encontramos em geral a relação C:N igual a 10 (10 partes de Carbono para cada parte de Nitrogênio). No entanto, na formação da sua estrutura física são necessários 2 átomos de Carbono, nos processos que geram a energia necessária à formação estrutural (os microrganismos aeróbicos emitem CO2 na sua respiração), para cada átomo de Carbono que será retido na estrutura. Desta forma, a relação C:N envolvida no processo de composição celular dos microrganismos é igual a 30, ou seja, para cada parte de Nitrogênio, 10 partes de Carbono ficarão retidas nas estruturas dos microrganismos e 20 partes de Carbono serão metabolizadas através da respiração dos mesmos.

Misturas com excesso de fontes ricas em carbono resultam em lentidão no processo, sem aquecimento, e matéria orgânica pobre em nitrogênio, que é um nutriente fundamental para o desenvolvimento vegetal.

Por outro lado, misturas com excesso de fontes ricas em nitrogênio ocasionam elevadas perdas de nitrogênio na forma amoniacal (NH4+), mal cheiro e atração de vetores de doenças como moscas.

Durante o processo a relação C:N cai, pois grande parte do carbono é transformado em gás carbônico (CO2).

2. Umidade entre 40-60%. A água tem papel fundamental nas reações químicas pois é o meio de solubilização dos nutrientes, o “solvente universal”. Promove o transporte dos nutrientes e possibilita o metabolismo e atividade microbianos. Níveis abaixo de 40% diminuem a atividade dos microrganismos e níveis acima de 60% atrapalham a oxigenação do processo, estimulando a fermentação anaeróbica, podendo ocorrer ainda a lixiviação excessiva dos nutrientes.

3. Aeração O processo de decomposição da matéria orgânica pode tomar caminhos completamente diferentes dependendo da disponibilidade ou não do oxigênio (O2).

3.1. Gáses emitidos: A compostagem é um processo de decomposição aeróbica onde ocorre principalmente a emissão de gás carbônico (CO2), com elevado aquecimento e atividade bacteriana. Na falta de oxigênio, ocorre fermentação anaeróbica com emissão de metano (CH4) e reduzido aquecimento e atividade bacteriana. O metano é um gás altamente nocivo ao meio ambiente, porém em processos controlados de decomposição anaeróbica pode ser obtido o biogás, combustível composto principalmente por CH4 e CO2.

3.2. Material obtido no processo: Ao invés da formação de matérica orgânica humificada, um material sólido com elevada capacidade de condicionamento do solo, na fermentação anaeróbica é formado material líquido com reduzida capacidade de condicionamento do solo (efluente de biodigestor). Ocorre ainda o acúmulo de ácidos orgânicos voláteis, como o ácido acético ou etanóico (CH3COOH), o ácido propanoico, propiônico ou propílico (C3H6O2 / CH3-CH2-COOH) e o ácido butírico ou butanoico (C4H8O2 / CH3-CH2-CH2-COOH).

3.3. Transformação do Nitrogênio (N). Decomposição aeróbica: N-orgânico → NH3 (amoníaco) → NO3-(nitrato). Fermentação anaeróbica: N-orgânico → NH3 → NO3 → N2O (óxido nitroso) + N2(gás nitrogênio ou dinitrogênio).

4. Tamanho dos materiais orgânicos (granulometria): Quanto mais fina a granulometria, maior a superfície disponível para a atividade microbiana, o que beneficia a decomposição da matéria orgânica. No entanto, fragmentos muito finos dificultam a aeração. Fragmentos muito grosseiros, por outro lado, além de diminuir a superfície exposta aos microrganismos, dificultam a manutenção da umidade.

5. Temperatura. A temperatura oscila ao longo do processo de compostagem, em condições ideais sua fase inicial é caracterizada pela elevação da temperatura da mistura que estimula a ação microbiana e a eliminação de patógenos. No entanto, alguns fatores impedem essa atividade como relações C:N muito altas, dificultando a ação microbiana e causando lentidão no processo de compostagem. A temperatura ideal para a ação microbiana fica entre 50 e 60ºC.

Diferentes métodos de compostagem

São diversos os métodos possíveis para a realização da compostagem, cada qual com características diferentes que interferem nos custos e na qualidade do composto produzido. A compostagem pode ser de pequeno, médio ou grande porte. É possível fazer compostagem em apartamentos, quintais de residências, pequenas propriedades rurais e em amplos espaços, como pátios de compostagem ou estruturas industriais.

Entre as alternativas de compostagem de médio/grande porte temos as leiras estáticas (com ou sem aeração forçada), as leiras com revolvimento e a compostagem realizada em reatores.

As leiras são pilhas retangulares onde a matéria orgânica proveniente de restos vegetais domésticos ou esterco de animais (ricos em Nitrogênio), por exemplo, é intercalada com material rico em Carbono, como restos de poda de árvores. Em quaisquer métodos onde o material é depositado em leiras ocorre a fase termofílica no início do processo, o que é bastante eficaz para eliminar patógenos que podem prejudicar a saúde animal e vegetal.

O método de leiras estáticas sem aeração forçada se destacam como um método muito barato para compostar grandes quantidades de material, dependendo no entanto da disponibilidade de espaço físico proporcional. A aeração forçada é realizada a partir do bombeamento mecânico do ar, que deve atravessar o material, exigindo a compra e manutenção de equipamentos.

As leiras com revolvimento podem ser utilizadas desde pequenas propriedades rurais, onde o revolvimento é comumente realizado com ferramentas manuais (o que exige considerável esforço físico), até grandes propriedades onde o revolvimento é realizado com a ajuda de máquinas, como tratores, aumentando consequentemente os custos do processo.

Os reatores também variam em escala de tamanho, podem ser utilizados em residências, restaurantes ou podem ter dimensão industrial. A maior vantagem deste método é a altíssima velocidade de decomposição inicial, o que possibilita que mesmo em residências sejam compostados restos de carne ou derivados do leite, por exemplo, ao contrário dos outros métodos de compostagem doméstica. No entanto, requer alto investimento inicial além dos gastos para manutenção do seu funcionamento, como o uso de energia elétrica.

A compostagem de pequeno porte, artesanal ou doméstica, é uma alternativa cada vez mais popular no ambiente urbano. Pode ser realizada em recipientes como cestos, tambores adaptados para a compostagem, composteiras automáticas ou minhocários (vermicompostagem). O destaque da compostagem em cestos está no baixíssimo custo. Os tambores adaptados facilitam muito o revolvimento, facilitando assim o estabelecimento de maior tempo de duração da fase termolífica, com maior eficiência na eliminação de microrganismos patógenos, além de promover uma maior homogeneidade ao composto formado.

As composteiras automáticas se destacam pela velocidade do processamento (cerca de 24 horas) e pela possibilidade de decompor restos de carnes e derivados do leite. O equipamento realiza ciclos de revolvimento, com ajuste da temperatura e filtros de ar que evitam o mal cheiro. A rigor, estas máquinas não realizam compostagem mas secagem e carbonização dos materiais, produzindo um carvão nutritivo adequado ao uso agrícola. Uma desvantagem considerável são os elevados custos de aquisição e utilização, pois são equipamentos feitos com aço inox e consomem energia elétrica, aditivos e troca de filtros.

A compostagem realizada em minhocários (vermicompostagem) se destaca pela facilidade no manejo, já que as minhocas reduzem muito a necessidade de revolvimento e a estrutura mais difundida de minhocário permite a captação do chorume (ou biofertilizante, biochorume, etc), que após ser diluído pode ser aplicado nas plantas oferecendo nutrientes solubilizados, de rápida absorção. Mais adiante detalharemos como utilizar adequadamente esta importante fonte de nutrientes. Vale lembrar que a mesma estrutura usada para a vermicompostagem pode ser utilizada para compostar apenas pela ação dos microrganismos.

Vale citar ainda aqui a gongocompostagem, que é aquela onde o protagonismo está com os gongolos, também conhecidos como embuás ou piolhos-de-cobra. Este método tem sido aplicado mais recentemente e apresenta muitos atrativos, desde baixo custo pois os gongolos são animais facilmente encontrados na natureza e produzem um húmus de altíssima qualidade (considerado até melhor do que o húmus de minhoca por apresentar melhor textura). A gongocompostagem é realizada em leiras ou pilhas de material orgânico e assim como a vermicompostagem dispensa a necessidade de revolvimento (reduzindo o investimento de mão de obra). Neste cenário são mais vantajosas do que as minhocas pois o número de predadores destes animais é menor. Além disso, qualquer gongolo encontrado na natureza dá conta do trabalho, enquanto para utilização eficiente nos minhocários é necessário adquirir espécies adequadas, como a famosa “minhoca californiana”.

Microrganismos

O papel desempenhado pelos microrganismos é fundamental na compostagem, mesmo nos métodos que contam com a participação de animais como minhocas ou gongolos. A fauna microscópica tem uma diversidade impressionante, e está presente em praticamente todos os ambientes do nosso planeta, especialmente no solo. Três tipos de microrganismos são comprovadamente importantes na compostagem: bactérias, actinomicetos e fungos (protozoários atuam também, porém com menor protagonismo).

Existem milhares de espécies de bactérias, que são seres vivos unicelulares que apresentam enorme variedade, mas apresentam anatomia intracelular típica. Seu conjunto forma o Reino Monera.

Os actinomicetos são um tipo específico de bactérias (reunidos no Filo Actinomycetales), sendo destacado em muitas publicações sobre compostagem. Por apresentar algumas características parecidas aos fungos, como o crescimento celular ramificado e seus métodos de esporulação, estes seres vivos já foram classificados como tais. Juntamente como os fungos, atuam na degradação dos materiais mais difíceis na compostagem como a lignina e a celulose. Uma característica interessante relacionada a estes microrganismos é o conhecido "cheiro de terra molhada", que é resultado de uma substância produzida pela espécie Streptomyces coelicolor, a geosmina ("perfume da terra" em grego).

Fungos também atuam na degradação dos materiais orgânicos mais resistentes. Também possuem uma enorme variedade, formando o Reino Fungyi. Alguns também produzem a geosmina.

Resultado da colaboração entre os projetos Dia de Microscopia e Circuito da Compostagem do Parque CienTec, temos aqui um vídeo bem legal que aborda o papel dos microrganismos da compostagem. Hoje é Dia de Microscopia e Compostagem!

Conheça mais sobre o projeto Dia de Microscopia, desenvolvido pelos monitores Allyson Barros, Andressa Meirelles e Ismael Augusto: Passeio Virtual/ Microscopia.

Minhocário

Um minhocário é uma composteira com algumas características especiais, porque ainda que os microrganismos autóctones sigam atuando na compostagem aqui o papel principal é desempenhado pelas minhocas. Com isso, o ambiente deve ser especialmente adequado a estes animais detritívoros e o nome mais adequado ao processo é vermicompostagem.

Por não necessitar de contato direto com o solo, os minhocários podem ser convenientemente utilizados em residências com pouco espaço e até em apartamentos. Essa é uma das razões que facilita a sua popularização nas grandes cidades.

As minhocas

As minhocas são animais anelídeos da classe Oligoqueta. São detrívoros, ou seja, se alimentam de detritos variados. Sua atividade melhora a qualidade do solo, pois enquanto ingerem grandes quantidades de terra vão formando túneis que beneficiam a aeração e descompactação do solo (esta atividade foi observada por Charles Darwin, que destacou a importância das minhocas como os primeiros lavradores do solo). Além disso, realizam o transporte de nutrientes entre as camadas profundas e as superficiais do solo. Ao mesmo tempo em que ingerem grande quantidade de nutrientes, excretam nutrientes em estruturas humificadas aumentando a fertilidade do solo.

Existem milhares de espécies de minhocas, com ampla variedade, tendo por exemplo variações de tamanho que entre poucos centímetros e alguns metros. Há espécies inclusive aquáticas. No entanto a espécie mais utilizada em minhocários é a Eisenia fetida, conhecida como minhoca californiana ou vermelha da Califórnia (que na verdade tem origem européia, mas é muito popular nos Estados Unidos). Sua popularidade está relacionada à sua alta capacidade detrívora, rápida reprodução e grande resistência. Estas características a tornam ideal para utilização em minhocários domésticos pois otimiza o processo de compostagem.

Especificidades do minhocário

O sistema de compostagem doméstica liderado pela ação das minhocas não necessita de intervenção para o fornecimento de oxigênio porque elas providenciam a aeração enquanto cavam túneis pelo material, mesmo assim podem ser realizados revolvimentos semanais para agilizar o processo. A minhocas são hermafroditas e se reproduzem de acordo com a oferta de alimento, então mesmo começando com poucas minhocas com o passar do tempo o minhocário fica bem populado. O húmus produzido pelas minhocas é beneficiado por suas enzimas digestivas.

Chorume, lixiviado, biochorume ou biofertilizante

A estrutura dos minhocários mais difundidos atualmente facilita muito a coleta do chorume/ lixiviado, que alguns preferem chamar de biochorume ou biofertilizante para diferenciar do chorume produzido no lixo não compostado. Esse líquido é rico em nutrientes, um excelente adubo natural de rápida absorção, ideal para utilização combinada com o húmus.

No entanto, é muito importante diluir o líquido coletado justamente pela alta concentração de nutrientes de rápida absorção, que pode intoxicar as plantas. Uma medida segura é diluir cada parte do chorume em 10 partes de água e aplicar nas plantas com intervalo mínimo de 7 dias.

O que pode e o que não pode ser compostado no minhocário?

Como já adiantamos, o ambiente do minhocário deve ser adaptado para oferecer condições favoráveis às minhocas. Com isso, é preciso evitar alguns materiais orgânicos e controlar a quantidade de outros.

Existem dois fatores principais, evitar a atração de animais indesejados e controlar o pH. Como já apontado anteriormente, carnes, gordura, leite e derivados apresentam odor forte e se decompõem lentamente, podendo atrair principalmente roedores, entre outros visitantes indesejáveis. Em relação ao pH é preciso ter moderação ao utilizar restos vegetais de frutas cítricas (por exemplo, limão, laranja e abacaxi), que devido à acidez acentuada podem afugentar as minhocas ou até chegar a matá-las.

Além disso, fezes de animais domésticos, como cães e gatos podem conter organismos patógenos (parasitas e vírus), podendo ser compostadas com métodos que otimizam a fase termofílica, o que não é o caso do minhocário. Os organismos patógenos podem ser prejudiciais às minhocas e podem estar presentes no composto final, tornando-se potencialmente prejudiciais às plantas que receberem o substrato. A mesma regra vale para restos de plantas doentes.

Minhocas californianas muito bem nutridas.

O que é húmus?

O húmus, ou matéria orgânica humificada, é formado pelas substâncias húmicas, macromoléculas com alto grau de polimerização. As substâncias húmicas são formadas por moléculas muito complexas e multifacetadas, contendo açúcares, ácidos graxos, polipeptídeos, cadeias alifáticas e anéis aromáticos.

Podemos destacar dois tipos de estrutura muito importantes nas substâncias húmicas, os anéis aromáticos e as cadeias alifáticas. Os anéis aromáticos são responsáveis pela grande estabilidade dessas macromoléculas, proporcionando maior resistência ao ataque de microrganismos decompositores; enquanto isso, as cadeias alifáticas são as principais responsáveis pela atividade química das substâncias húmicas.

A matéria orgânica humificada contém muitas características que beneficiam a fertilidade do solo:

1. Nutrientes. Apesar de variar dependendo dos materiais utilizados, em geral a matéria orgânica humificada é rica em macronutrientes (aqueles assimilados em maior quantidade pelas plantas) como nitrogênio (N), fósforo (P), potássio (K), cálcio (Ca), magnésio (Mg) e enxofre (S). Além disso, também é rica em micronutrientes (assimilados em menor quantidade) como ferro (Fe), zinco (Zn), cobre (Cu), manganês (Mn), boro (B), cloro (Cl) e molibdênio (Mo).

Um fator muito importante é que os nutrientes são disponibilizados gradualmente, reduzindo consideravelmente sua perda por lixiviação (fenômeno através do qual os constituintes químicos do solo são dissolvidos na água e retirados da sua camada mais superficial, prejudicando o fornecimento de nutrientes necessários ao pleno desenvolvimento vegetal). Essa característica está relacionada à complexidade das moléculas onde os nutrientes estão ligados.

2. A grande diversidade molecular proporciona tanto a formação de microporos, que ajudam na retenção da água e oferecem refúgio para a micro e a macrofauna, quanto a de macroporos, que favorecem o escoamento do excesso de água e a aeração. Esta alternância melhora estas condições de fertilidade do solo e ao mesmo tempo ajuda a evitar a sua erosão.

3. Inativação de elementos tóxicos. A alta capacidade de complexação de metais, possibilita a imobilização de metais pesados impedindo seu fornecimento às plantas.

4. Aumenta a capacidade de troca de cátions (CTC). As substâncias húmicas são ricas em grupos carboxílicos (COO-) e hidroxílicos (O-) que favorecem a adsorção (adesão de moléculas em solução a superfícies sólidas) dos cátions e evitando sua perda por lixiviação. Alguns cátions são justamente nutrientes importantes para o desenvolvimento vegetal, como cálcio (Ca2+), magnésio (Mg2+) e potássio (K+), por exemplo.

5. Efeito tampão no solo. Esta característica diz respeito à grande estabilidade que a matéria orgânica humificada proporciona ao pH do solo, que é capaz de não sofrer mudanças significativas ao receber soluções muito ácidas ou muito básicas.

A importância ecológica da compostagem

A compostagem tem um enorme potencial para reduzir problemas ambientais decorrentes da má destinação do lixo urbano, pois potencialmente pode reduzir em aproximadamente 50% o volume dos resíduos orgânicos coletados junto com o lixo comum. Ao mesmo tempo produz compostos estáveis e benéficos ao solo, além de ricos fertilizantes líquidos.

O grande volume de lixo gerado nas cidades é resultado direto do crescimento desorganizado da economia capitalista, que ampliou abruptamente a capacidade produtiva através da industrialização. Apesar da maior capacidade industrial representar potencialmente uma maior capacidade de reciclar, existe um descompasso entre o altíssimo nível de consumo nas economias desenvolvidas e seus custos de mão de obra. Um dos resultados desta equação é a exportação de contêineres de lixo para países de desenvolvimento atrasado. O que deveria se restringir a materiais recicláveis para serem processados com menor custo econômico, abre espaço para um mercado de exportações ilegais, que em casos extremos envolvem até o envio de lixo hospitalar.

A falta de coleta seletiva de materiais recicláveis e da prática em larga escala da compostagem faz com que esses materiais potencialmente reaproveitáveis sejam acumulados em lixões ou aterros (sanitários ou não), junto a materiais para os quais não dispomos ainda de métodos para seu rápido reaproveitamento.

Ampliar radicalmente a prática da compostagem nos permitiria fechar, em larga escala, o ciclo dos nutrientes. Ao mesmo tempo em que pode diminuir a dependência dos fertilizantes inorgânicos, pode também evitar o desperdício dos nutrientes que acabam se acumulando em aterros e lixões.

O potencial econômico em sistemas produtivos sustentáveis

A partir do intenso processo de urbanização e a industrialização das atividades agropecuárias, o fluxo de nutrientes foi em grande medida interrompido. Este processo histórico distanciou fisicamente a produção alimentícia vegetal dos dejetos animais que providenciavam o retorno dos nutrientes ao solo, ao mesmo passo em que o acúmulo dos dejetos nas cidades contribuiu intensamente para a poluição dos rios e lençóis freáticos.

A compostagem pode ser utilizada em sistemas integrados de produção como nos sistemas ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta), que envolvem atividades agrícolas, criação de animais e agroflorestas. Estes sistemas integrados permitem intensificar o uso da terra, reduzir os custos e aumentar a renda do produtor rural. É possível, ao mesmo tempo, diminuir a geração de resíduos, aumentar o reaproveitamento dos nutrientes e melhorar as características do solo (físicas, químicas e biológicas).

Resíduos animais e vegetais, como esterco, cama de aviário, restos de abatedouros, bagaço de cana-de-açúcar e outros restos de culturas agrícolas além de folhas e galhos caídos de árvores, por exemplo, podem ser reaproveitados. Os benefícios são, além de ecológicos, econômicos. Ao mesmo tempo em que se economiza nos custos relativos ao descarte destes materiais, o investimento em corretivos do solo e fertilizantes também é reduzido.

O potencial sanitário e econômico da compostagem nas cidades

Um primeiro benefício que merece ser destacado é que a redução da quantidade do lixo que é destinado aos aterros sanitários gera economia nos gastos com transporte, além de aumentar a vida útil desses aterros. Ao ampliar a prática da compostagem, tanto doméstica ou comunitária, nas empresas ou a partir de iniciativas de grande porte do poder público, é possível reduzir significativamente a quantidade dos resíduos destinados à coleta de lixo comum.

O próprio lodo de esgoto gerado nas estações de tratamento pode ser reaproveitado (muitas vezes sendo chamado então de biossólido) e uma das etapas é justamente a compostagem. Além de reduzir a quantidade do material destinado aos aterros sanitários, o que já é relevante, a elevação da temperatura na fase termofílica promove a desinfecção do material e ao final do processo de compostagem o lodo de esgoto, ou biossólido, é transformado num importante insumo agrícola, passando de problema a solução. Por exemplo, no estado de São Paulo, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (SABESP), produz fertilizante orgânico a partir do lodo da estação de tratamento de esgoto.

O composto formado pode ser aplicado na produção vegetal como adubo, utilizado em praças e parques e na recuperação de áreas degradadas, entre outras possibilidades, pois para além do seu valor nutritivo o composto melhora muitas características físicas, químicas e biológicas do solo.

Legislação sobre a compostagem

Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, reúne um conjunto de princípios, objetivos, instrumentos, diretrizes, metas e ações para nortear a gestão integrada e ambientalmente adequada dos resíduos sólidos.

Um importante objetivo desta lei é determinação da elaboração, em nível nacional e estadual, de metas para a eliminação e recuperação dos lixões, associadas à inclusão social e à emancipação econômica de catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis.

Em seu artigo 36, a lei estabelece em nível municipal a obrigação dos serviços públicos de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos:

I - adotar procedimentos para reaproveitar os resíduos sólidos reutilizáveis e recicláveis oriundos dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos;

II - estabelecer sistema de coleta seletiva;

III - articular com os agentes econômicos e sociais medidas para viabilizar o retorno ao ciclo produtivo dos resíduos sólidos reutilizáveis e recicláveis oriundos dos serviços de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos;

IV - realizar as atividades definidas por acordo setorial ou termo de compromisso na forma do § 7o do art. 33, mediante a devida remuneração pelo setor empresarial;

V - implantar sistema de compostagem para resíduos sólidos orgânicos e articular com os agentes econômicos e sociais formas de utilização do composto produzido;

VI - dar disposição final ambientalmente adequada aos resíduos e rejeitos oriundos dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos.

Este artigo estabelece ainda, para cumprimento do disposto no incisos I a VI, a priorização da organização e do funcionamento de cooperativas ou outras formas de associação de catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis formadas por pessoas físicas de baixa renda, bem como sua contratação, dispensada de licitação, pelo titular dos serviços.


Instrução Normativa nº 25, de 23 de julho de 2009, do Ministério de Estado da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Estabelece normas sobre as especificações e as garantias, as tolerâncias, o registro, a embalagem e a rotulagem dos fertilizantes orgânicos simples, mistos, compostos, organominerais e biofertilizantes destinados à agricultura.

Art 2º - Os fertilizantes orgânicos simples, mistos, compostos e organominerais serão classificados de acordo com as matérias-primas utilizadas na sua produção em:

I - Classe "A": fertilizante orgânico que, em sua produção, utiliza matéria-prima de origem vegetal, animal ou de processamentos da agroindústria, onde não sejam utilizados, no processo, metais pesados tóxicos, elementos ou compostos orgânicos sintéticos potencialmente tóxicos, resultando em produto de utilização segura na agricultura;

II - Classe "B": fertilizante orgânico que, em sua produção, utiliza matéria-prima oriunda de processamento da atividade industrial ou da agroindústria, onde metais pesados tóxicos, elementos ou compostos orgânicos sintéticos potencialmente tóxicos são utilizados no processo, resultando em produto de utilização segura na agricultura;

III - Classe "C": fertilizante orgânico que, em sua produção, utliza qualquer quantidade de matéria-prima oriunda de lixo domiciliar, resultando em produto de utilização segura na agricultura: e

IV - Classe "D": fertilizante orgânico que, em sua produção, utiliza qualquer quantidade de matéria-prima oriunda do tratamento de despejos sanitários, resultando em produto de utilização segura na agricultura


Instrução Normativa nº 27, de 5 de junho de 2006, alterada pela IN SDA 07 de 12/04/2016. Estabelece os limites de concentrações máximas admitidas para agentes fitotóxicos, patogênicos ao homem, animais e plantas, metais pesados tóxicos, pragas e ervas daninhas para produzir, importar ou comercializar fertilizantes, corretivos, inoculantes e biofertilizantes.


Resolução CONAMA nº 481, de 3 de outubro de 2017. Estabelece critérios e procedimentos para garantir o controle e a qualidade ambiental do processo de compostagem de resíduos orgânicos. É importante destacar que essa resolução não se aplica a processos de baixo impacto ambiental, desde que o composto obtido seja para uso próprio ou comercializado diretamente com o consumidor final.

Art.5º: Durante o processo de compostagem deverá ser garantido o período termofílico mínimo necessário para redução de agentes patogênicos conforme o Anexo I.

Art.10: As unidade de compostagem devem atender aos seguintes requisitos mínimos de prevenção e controle ambiental:

I-adoção das medidas de controle ambiental necessárias para minimizar lixiviados e emissão de odores e evitar a geração de chorume;

II-proteção do solo por meio da impermeabilização de base e instalação de sistemas de coleta, manejo e tratamento dos líquidos lixiviados gerados, bem como o manejo das águas pluviais.

Faça sua própria composteira!

Aqui apresentamos alguns modelos de pequeno e médio porte, para que você comece a praticar a compostagem em casa.

Clique nos baldes e aprenda 4 maneiras de fazer compostagem na sua casa!

Live "Hortas Escolares e Compostagem"

Buscando divulgar conhecimento nessas áreas a partir do trabalho do Grupo Hortas na Web e do Circuito da Compostagem do CienTec, participamos de uma live do ciclo Sustentabilidade na Megalópole: desafios e possibilidades. Assista aqui o evento realizado em 18/09/2020.

Acesse esse link para conhecer mais sobre esse ciclo de lives organizado pelo Parque CienTec.

Aproveite para conhecer nosso canal no YouTube.

Em breve...

Teste seus conhecimentos, níveis médio e difícil.

Aprenda brincando com o "Jogo da compostagem".

Compostagem para crianças, através de uma apresentação lúdica e recheada de desenhos.

Dicas para cuidar da sua composteira doméstica.

Seção de perguntas e respostas.

Autoria: Pusceddu, L.; Bassini, A. (2020) Circuito da compostagem.

Créditos detalhados

Autor: Luca Hermes Pusceddu - lhp@ib.usp.br

Revisão do texto: Ailton Marcos Bassini

Fotos: Luca Hermes Pusceddu